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Autoconhecimento

Back to the basics: será que você tem traumas?

Julho 2025 Psicologia do Trauma

Muitas pessoas ainda acreditam que procurar um profissional especializado em trauma faz sentido apenas para quem viveu tragédias, guerras, abusos sexuais ou situações extremas amplamente retratadas nos noticiários. Porém, entre as décadas de 1990 e 2000, pesquisadores passaram a demonstrar que experiências cotidianas, sutilmente violentas e repetitivas também podem produzir efeitos traumáticos.

Isso pode acontecer, por exemplo, quando uma criança cresce com pouca ou nenhuma conexão emocional com seus cuidadores primários, sofre bullying de forma persistente ou tem suas necessidades emocionais constantemente ignoradas.

O que realmente define uma ferida traumática

Foi a partir dessa compreensão que surgiu uma diferenciação bastante utilizada na Psicologia do Trauma: o Trauma com T maiúsculo, relacionado a acontecimentos extremamente avassaladores, e o trauma com t minúsculo, ligado a experiências aparentemente comuns, mas que, pela repetição, também deixam marcas profundas.

Essa divisão é apenas didática, porque na prática a linha entre essas duas categorias é muito mais sutil do que parece e frequentemente se sobrepõem.

Então, o que realmente caracteriza um trauma? Mais importante do que o tamanho do acontecimento é a forma como ele foi vivido e processado pela pessoa.

A ferida traumática surge quando uma experiência exige um nível de processamento emocional muito maior do que o organismo consegue realizar naquele momento. Em vez de ser integrada, essa experiência permanece "presa" no corpo e na mente como uma ruptura na sensação de segurança e na conexão consigo mesma e com os outros.

Algumas feridas traumáticas surgem de maneira abrupta, mas outras se instalam lentamente, quase sem serem percebidas. Nesses casos, desenvolvemos mecanismos sofisticados de adaptação para continuar funcionais. O problema é que, muitas vezes, passamos a enxergar a nós mesmos, os outros e o mundo através dessa visão ferida, acreditando que ela representa o que a vida realmente é. Por isso, pessoas extremamente responsáveis, competentes e funcionais também podem carregar feridas traumáticas profundas sem sequer imaginar.

Também é importante esclarecer que nem toda experiência dolorosa se transforma em trauma, pois todo trauma envolve estresse, mas nem todo estresse resulta em uma ferida traumática.

Embora não exista uma regra capaz de prever exatamente o que se tornará traumático (o que pode ser uma informação angustiante para pessoas que tem filhos), sabemos que pessoas que crescem em vínculos seguros, estáveis e suficientemente bons costumam desenvolver mais recursos internos para atravessar experiências difíceis sem que elas deixem marcas traumáticas permanentes. É claro que esse processo é muito mais complexo do que essa explicação resume, mas esse é um tema que merece um texto próprio.

De maneira geral, podemos pensar que o estresse tende a diminuir quando a situação difícil termina. Já a ferida traumática permanece e continua influenciando emoções, comportamentos, relacionamentos e a forma como a pessoa interpreta a si mesma e o mundo, mesmo quando a situação original já passou há muito tempo.

O trabalho centrado no trauma

É justamente nesse ponto que atua um profissional com abordagem centrada no trauma. O trabalho, além de tentar aliviar sintomas, busca identificar como essa ferida limita o funcionamento emocional, relacional e corporal da pessoa. A partir daí, utilizando os conhecimentos e técnicas da Psicologia do Trauma, o objetivo é favorecer um processo de integração que permita uma vida com mais saúde e autenticidade, independentemente de o trauma ter origem em grandes acontecimentos ou em pequenas experiências repetidas ao longo da vida.

Obrigada por chegar até aqui!

Depois de conhecer um pouco mais sobre esses conceitos, deixo uma pergunta para você:

Você ainda acredita que uma abordagem centrada no trauma é indicada apenas para pessoas que viveram tragédias, violências extremas ou você se beneficiaria desse cuidado também?

Mônica Morato Ribeiro  ·  Psicóloga clínica e psicossocial  ·  CRP 01/21664
Referência bibliográfica
Maté, Gabor. O mito do Normal / Gabor Maté, Daniel Maté. Rio de Janeiro: Sextante, 2023.

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